17.4.11
Caminhada
Estava pronto para dar um passo adiante. Não pode. Teria de esperar. Nos ouvidos, uma melodia que o levava léguas de lá. Ao lado, alguém com certa pressa. Batia os pés naquele movimento cansavelmente óbvio de quem está com pressa. Poderia ter sido mais criativo. Pensar em algo mais original, mas não. Imitava a multidão. Usava roupas coerentes com seus hábitos. Aquele cabelo todo voltado para o lado que o atrapalhava a visão e o impelia a todo o momento ter de retirar tantas mechas de sua face, mas não importava. Tanta obviedade causava repugnância, mas que fosse. Detalhes como esse já não mais importavam. A música continuava a soar. Procurou então prosseguir. Ainda não podia. Do outro lado da rua, um senhor. Por entre suas pernas uma pequena criança. Aproveitava aquele momento de espera para beijá-la incansavelmente. Por todos os lados, de todas as formas, enquanto ela sorria pela agradável sensação de carinho que a tomava. Batia erroneamente as mãos como que externalizando aquele momento de felicidade. Desviava o olhar para não ser visto e tentava observar aquele momento fotográfico tão belo. Aquilo sim não era algo óbvio. Não era tão comum de se ver. Uma pena. Deve ser por isso que os fotógrafos procuram heroicamente registrá-los. Sorriu também. Sinal aberto.
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